Crescida em uma chamada área de vulnerabilidade, o que sonhava aquela menina, quais seriam suas aspirações. Mas o que esperar de uma casa que tem por chefe um bêbado? Carinho é que não poderia ser. Acostumada com os problemas trazidos pelo genitor, foi perdendo as esperanças. No entanto, o pior estava por vir. O problema do álcool de seu pai se tornou tão grave que este passou a abusar sexualmente da jovem. Mas, sim, podia piorar. Os abusos não cessaram e depois vieram outros de outras pessoas. Violência pouca é bobagem.
Aos 12 anos estava grávida, a filha como não poderia deixar de ser era fruto de uma violência sexual e vieram mais três rebentos dessa forma. Eis que aos 16 anos Flávia toma uma atitude, compra uma arma o que não era difícil de conseguir em sua vila e vai a desforra. Começa por casa e mata o seu pai. Depois, vai atrás de cada um de seus abusadores sem poupar nenhum. Ao contrário dos violentos que acabaram com a chance de uma vida sem traumas para ela, Flávia foi presa e condenada a cumprir mais de 20 anos de cadeia.
O que passava pela cabeça de Flávia? Ela apenas se vingou. Sempre ouvira falar no olho por olho, dente por dente e estava sendo punida por isso... É, não fazia muito sentido mesmo, mas lá foi aquela outrora criança abalada cumprir sua pena. Antes de chegar a casa prisional Flávia já tinha um certo amadurecimento, advindo de sua vida por demais vivida. Uma coisa ela já tinha em mente, ninguém a colocaria em posição de inferioridade e ela não deveria satisfação para ninguém. No cárcere tornou-se intratável, era considerada "bandida perigosa", sempre pronta a arrumar confusão. Alguém poderia desconfiar que ela não tinha mais sentimentos, mas era ledo engano, os tinha e com afinco. Uma companheira de presídio acabou por despertar seu interesse e a recíproca era verdadeira. Com sua cara metade ela conseguia fugir do seu estereótipo e demonstrar um pouco de carinho.
Flávia teve a oportunidade de estudar na cadeia, graças a um convênio entre o Poder Público e uma Instituição de Ensino. O curso ofertado era o de assistente social. Quando da inscrição dela para a atividade, todos os professores foram alertados sobre seu gênio e as dificuldades de relacionamento que ela tinha. Para surpresa geral, aos poucos, a carranca foi dando lugar a uma atitude mais positiva e pró-ativa. Na realidade, existia ali uma grande aluna e com grandes pretensões. Graduou-se ainda na prisão e ainda teria de esperar mais um pouco por sua liberdade. Mas não havia dúvidas queria seguir carreira, estava absolutamente convencida de que o curso feito era aquele moldado para ela.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
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