sábado, 16 de outubro de 2010

Alvah Goldbook

Ele sempre me pareceu estranho. Estávamos todos nus e ele nem aí, seguia com seu livro em mãos recitando poesias. Criava também, parecia ter jeito para a coisa. Alvah nunca se importou com mulheres, acho que nem gosta delas também, não sei se é gay. Mas perfeitamente poderia ser. Enquanto bebíamos vinho, ele seguia quieto, não gostava de álcool também. Parecia um ser deslocado da nossa loucura zen-budista-transcendental de amor livre. Alguém que prefere livros do que pessoas deve ser admirado. No entanto, deve ser temido. Normalmente ocorre que acaba por ter muita teoria acumulada e não leva as questões para uma lógica prática. Me atreveria, sem modéstia, dizer que ele não vivia. Digo, sem modéstia, pois entendo saber o que é viver. Com certeza não é a maneira do Goldbook, ele é um espectador, um voyeur nato.
Lembro quando o convidei para subir até as montanhas, ele só me disse não. Sem justificativa qualquer. Acho que tinha medo de sair de seu pequeno apartamento, tão aconchegante quanto um útero e desbravar novas aventuras. Não consigo entender alguém que não admire a magia de uma caminhada nas montanhas, aprendi isso com Japhy: o vagabundo mais iluminado. Cada vez que vou àquelas montanhas me sinto mais vivo. Aprendo com cada pedra que vejo pela frente, elas conversam contigo e te dizem tudo que aconteceu nos últimos 15 mil anos. Afinal, elas estão ali e sabem tudo e não tem vergonha de contar. Mas AG não queria nada disso ele sabia tudo pelo Dostoiévski, nunca quis desanimá-lo, mas e se não fosse como na Rússia? A vida muda de rincões em rincões. A dosvidania não é a mesma saudade que sentimos, nem o perdão é o mesmo e eu como católico comum, não entendo os ortodoxos e seu sinal diferente, que diferença faz? Suas barbas longas são continuações de seus pênis pequenos e impotentes.
Fico pensando como ele vai ficar ao ler isso tudo? Como vai reagir? Deixará de me considerar um amigo? As amizades se destroem por tão pouco, sei de tantas histórias. Isso me deixa triste. Mas como admitir que um sujeito possa não gostar de fast cars and hot women, curtindo um jazz adoidado enquanto toma um chá de maçã com alguma coisa a mais. Depois que você mistura cerveja e leite condensado tudo parece diferente, foi ali que minha vida se perdeu por entre os dedos de metalúrgicos do sul do Grande Rio. Eu sempre tentei compreender o que me diziam, isso fez de mim uma pessoa um pouco melhor. Por outro lado, sinto que os demais não levam em consideração o que eu digo e juro, com todas as forças, que tenho algo importante a dizer, ainda mais para Alvah. Não desista irmão, você vai chegar lá, desde que saia dessa sua bolha louca de normalidade.

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