sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Parlamentar

Ele não sabia porque estava lá. Lhe ungiram entre os escolhidos sem maiores explicações, lhe deram um número e um espaço para falar, mas ele não sabia o que dizer. Portanto, repetia sempre a mesma coisa e assim foi por uma campanha inteira. Chegou o grande dia as urnas abertas e ele não tinha nenhuma expectativa, afinal quem ia votar em um cara que mal sabia onde estava e não tinha os motivos para isso e para piorar só sabia dizer uma coisa: eu não sei!
Para sua surpresa houve uma massificação do seu "slogan", ele era "hit" da web, pessoa mais falada no Twitter, com comunidade no Orkut e destaque no site do partido. Pois bem, não é que as urnas consagraram-no, saiu eleito, era o mais novo congressista do Brasil. E agora o que faria? Ele até não tinha avisado como outros fizeram, mas ele não sabia o que fazia um deputado. O mais próximo de um político que ele tinha chegado fora com o Odorico Paraguassú em o Bem-Amado, só faltava-lhe as velhinhas cajazeiras.
Seu primeiro dia no Congresso foi de pura pompa, ia ser diplomado, não o TSE não cassou sua candidatura, não havia nenhuma irregularidade, nenhum óbice. Feita a diplomação era hora ajeitar as mangas da camisa, botar os braços para o trabalhar. Mas como trabalhar, ele ainda não sabia como. Sem assessor seria difícil. Ele resolveu chamar um parente, no entanto um ouvido amigo avisou-lhe que aquilo não era possível, não podia e não pegava bem. Finalmente, lembrou-se de um amigo de infância que era muito inteligente, nota dez em matemática. Achou o amigo e esse no mesmo dia já estava na capital federal.
Passaram-se os dias e o corpo do gabinete foi engordando e ia recebendo visita,s dos mais humildes ao mais importantes. Teve uma importante reunião com o líder de sua bancada, que explicou tintim-por-tintim a orientação ideológica do partido e seu alinhamento com o governo, toda essa explicação resultou num monólogo de longos dois minutos. O nosso parlamentar do século vinte e um, aclamado nas redes sociais, chegava à conclusão de que não era tão difícil. Era suficiente fazer o que os outros mandavam, ir de acordo com as principais lideranças e tudo ia bem, ele receberia seu dinheirinho para ajudar a família e tinha a verba do gabinete que não era gasta por inteiro, aquela sobra tinha destino certo o caixa para a próxima campanha que teria com certeza, dessa vez, muita pirotecnia. Não lhe faltaria o carro de som com o "... eu não sei, eu não sei à toda". Também tinah de ter um boneco estilo aos de Olinda e faria shows claro (ele não sabia que isso já tinha sido proibido) e assim por diante de forma tranquila ia alcançar mais uma legislatura e se consagrar politicamente.

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